Laroyê

 

Laroyê

 

         (*)

       Embora não fosse dia de semana, mas sábado, o motor da Honda 150 era acelerado pela minha pressa, a mesma dos chamados dias úteis, agora também soprando fumaça do seu escapamento contra o relógio. Os terrenos ermos da rua extensa e suas casas em construção circundavam um caminho que não tinha nada de bonito, porém minha ansiedade dava a sensação de que eu estivesse no Japão atravessando uma alameda pergolada por cerejeiras. Eu ia, e o vento através do capacete ressoava canções de Matheus Aleluia e Clara, nomes de entidades que li em “Um defeito de cor”, um vento que contornava em sentido contrário a Árvore das Sete Voltas e me empurrava como um navio a caminho de um porto ancestral.

            Eu nada sabia do terreiro, senão aquilo que Fernanda dele me havia falado. Tinha perfil no Instagram, mas apenas nome e endereço, sem fotos. Talvez tivesse a ver com a própria entidade que regia a casa: Olodé Akuerã, senhor das matas, caçador sob o signo do Mistério. Sem saber, eu pisaria seu chão com sua cor num par de All Star azuis. Mas antes, a descida. Do alto da avenida, lá embaixo se podia avistar o posto de gasolina, atrás de onde o terreiro ficava, e também o que já fazia do caminho até lá flertar com o divino, pois ficava em uma encruzilhada. Só mais tarde, quando saí de lá, é que me dei conta deste fato, como um expectador que, depois de assistir a um balé, pesquisa a história na qual foi inspirado, e então as coreografias se amplificam.

            Quando virei a esquina, avistei um grupo de pessoas, a maioria vestindo branco. Reuniam-se em frente à uma casa que nada indicava ser um terreiro de candomblé, de portão cor gelo quase que todo fechado, apenas com espaços no alto. Conversavam em pequenos grupos, alguns ao lado da casa, outros sentados sobre um pedaço de tronco improvisado como banco. Todos voltaram os olhos para mim, que estacionei tentando fingir despretensão, como se estivesse alheio àqueles olhares. De imediato, notei um, que me reconheceu antes que eu tirasse o capacete. Era um jovem que sorria para mim, de rosto moreno e uma cabeleira encaracolada por fios de carvão. Lembrei então de Sérgio se aproximando de mim e de Fernanda na sala de aula, e perguntar, com entusiasmo no olhar, se eu iria na gira.

            Além de Sérgio, reconheci outros alunos espraiados naquela calçada. André conversava com um casal, encostado em um carro, e ergueu a cabeça em minha direção, fazendo com que eles se voltassem para mim. Mais próximos à pequena porta de entrada, alguns jovens quedavam encostados no muro, todos sentados com Fernanda ao centro, que abraçava as pernas dobradas e sorria olhando para mim, com seus pequenos dentes revelando uma adolescência ainda recente, ao mesmo tempo em que disfarçavam o quão fundo eles já morderam do mundo. Caminhei em sua direção sob olhares de esguelha, fazendo curtas e rápidas reverências com a boina sobre a cabeça, lançando “boas-noites” quase inaudíveis em meio ao burburinho das conversas. Assim eu avancei, até os olhos negros que se tornariam minha sentinela naquela noite.

- Boa noite, professor!

- Oi Fernanda! E aí, tudo bem? Sabe que eu pensei que a casa ficasse do outro lado da avenida? Ainda bem que olhei o Maps antes.

- É, muita gente confunde. Ou pensa que não é aqui, porque, olhando de fora, ninguém acha que é um terreiro. Quer entrar?

            Aquela mesma pergunta me havia sido feita um pouco antes de alcançá-la, quando um menino trans veio ao meu encontro, deu as boas-vindas e, apontando a porta principal, me convidou a entrar. Respondi a ambos que preferia ficar ali fora, e entraria dali a pouco, quando a gira fosse começar. Fiquei perto do meio-fio, segurando o capacete que emprestei de Ana e olhando o entra-e-sai de pessoas na casa, gente de idades e tipos variados, a maioria vestindo branco e, o que achei interessante, saindo descalços à rua. Gostava desse jeito desencanado de viver a espiritualidade, que já tinha visto ao visitar um templo budista em Cabreúva, ou no mosteiro de Itaici e seus retiros de silêncio, descobertos logo depois que deixei o seminário. Aqueles pés nus me acolheram melhor do que as palavras.

            Enquanto estava ali, percebi um vulto de uma mulher se aproximando. Não consegui ver o seu rosto antes de ela se precipitar em um abraço, afundando-o no meu peito. Quando ela se afastou, jogando para trás seus cabelos vermelhos curta e simetricamente cortados, demarcando com duas pontas cada lado da face, é que a reconheci. Há anos não via mais aquela garota, uma ex-aluna que desapareceu da escola depois de vários meses afastada para se tratar de uma depressão. Cheguei a visitá-la em seu aniversário de 16 anos, uma visita surpresa, quando lhe dei de presente “Cartas a um jovem poeta”, porque ela escrevia bons poemas, e, não sei se foi o tempo ou a pessoa que eram errados, mas comecei um flerte com sua mãe.

- Lembra de mim?

- Claro! Que surpresa, Bia!...

            E parou aí. Ela me disse, como os outros, para ficar à vontade, e entrar se quisesse. Então se afastou, apesar de eu esboçar que faria uma pergunta qualquer, para quebrar o gelo. Seria tolo se esperasse algo de diferente, uma vez que, entre os motivos por eu e sua mãe termo-nos afastado, estava o fato de Elisa descobrir que ela nutria um amor platônico por mim, e ver nós dois juntos poderia complicar ainda mais as coisas. A última vez em que nos encontramos, parecíamos dois estranhos, eu entrando de supetão na sala da coordenação da escola para pegar alguma coisa, e as duas sentadas ali, com certeza para tentar uma solução diante da iminente reprovação de Bia, e suspeito que não estavam espontaneamente. Olhei em redor de Bia para tentar encontrar o rosto de Elisa, mas os rostos em torno dela eram todos desconhecidos.

            Dali a pouco ouvi a voz de Fernanda, me chamando para entrar. Ela foi na frente, junto com outros dois jovens com quem conversava. A casa recendia a incenso, toda ela. O terreiro ficava no que seria a garagem, logo na frente. Havia duas senhoras sentadas nas cadeiras que estavam dispostas no salão, circularmente a uma espécie de presbitério, onde uma cadeira de jacarandá com encosto alto quedava sozinha, com algumas folhas de espada-de-são-jorge dispostas em um vaso cinza atrás de si. Um pouco à direita, dois tambores altos se destacavam. Ao lado deles, um rapaz de jaqueta cinza esperava sentado o início do rito, os braços cruzados sobre o peito onde uma guia vermelha mostrava que ali estava um filho de Iansã. O círculo de cadeiras começava e terminava na porta que levava ao interior da casa, que, de onde eu estava, dava para ver algumas prateleiras cheias de objetos, roupas e garrafas de cachaça, com pessoas passando e conversando animadamente.

            Sentei a algumas cadeiras das duas senhoras, colocando a bolsa transversal mais para o lado, e o capacete no chão, debaixo da cadeira. Uma delas olhava para a tela do celular, enquanto a outra acompanhava o movimento de pessoas dentro da casa. Lembrei de Ana, que àquela hora estaria no nosso apartamento, ou, talvez fosse mais justo dizer, no seu esconderijo. Embora ela tivesse dito para que eu não me preocupasse, o agravamento de sua condição fez com que, naquela semana, eu olhasse o celular a cada 5 minutos, deixando-o sobre a mesa durante as aulas, à espera de alguma mensagem sua ou de sua mãe, em cuja casa eu a vinha deixando antes de ir para o trabalho, e lá retornava à noite. Tirei então o celular da bolsa: nenhuma mensagem. Aquele silêncio tendia a agravar minha própria ansiedade, pensando se ela estaria bem, e já ia mandar mensagem quando Fernanda sentou-se repentinamente ao meu lado.

            O esmalte de um vermelho já desbotando das unhas dos pés contrastava com sua calça de sarja branca, e também com a camiseta igualmente branca, quando ela cruzou as pernas, encostando o tronco no espaldar da cadeira, com a cabeça inclinada para mim como se fosse sussurrar um segredo. Aproximei a minha.

- Professor, deixa eu te falar. Quando começar, você vai ouvir o pessoal chamando Exu Caveira e tals, mas fica tranquilo. Não tem nada a ver com demônio, igual o pessoal fala por aí. É só mais uma das entidades que a gente cultua e que abre caminhos, tá bom?

- Fique em paz, Fernanda. Eu sei disso.

- Ah...que bom! Aliás, que bom você ter aceitado o convite pra vir. Fico meio assim de convidar quem eu não conheço muito, mas fiquei mais à vontade quando você falou da minha guia, tipo elogiando, sabe?

- É bonita, Fernanda. E eu que te agradeço, porque acho que veio de encontro com algumas respostas que eu ando procurando. Quem sabe hoje eu as receba. Tomara...

- Sim, prô. Outro dia, eu tava passando por algumas crises, tive uns problemas com bebida, não sei se você ficou sabendo...Mas em uma gira, a cigana, sem eu falar nada do que tava acontecendo, veio na minha direção, me abraçou e falou no meu ouvido que aquilo que eu tava fazendo não era certo, e que eu precisava deixar pra trás o que tava me destruindo. Foi aí que comecei a mudar.

            Enquanto Fernanda falava, percebi um súbito burburinho na entrada da casa. Ela virou a cabeça e, voltando-se para mim novamente, com a mão direita jogando para trás da orelha uma mecha descolorida, mostrou os pequenos dentes em um sorriso que oscilava entre inocência e pragmatismo. “É o pai de santo!”, soou parecendo mais uma frase didática do que uma apresentação à distância. Ergui os olhos acima dos ombros de Fernanda, e vi um homem moreno, muito jovem ainda, com cabelos e barba cortados ao estilo de um cantor sertanejo, usando um conjunto de camisa e calça de um verde-claro estampado com pequenas flores. Porém, os sapatos se adiantavam a todo o resto, e pareciam mesmo ter uma espécie de força gravitacional em seu couro-verniz branco e vermelho, e um imã no todo de sua figura, que me fez imaginar ser a representação perfeita do que seria uma personagem de a Ópera do Malandro que decidisse deixar para trás seus territórios profanos e pisar em um terreiro, porém sem se despojar de seus instrumentos de sedução.

            Ele se dirigiu até a cadeira que parecia reservada a ele, ao lado dos tambores, e ficou em pé, de costas para ela. Um grupo de pessoas formou uma fila para saudá-lo, e eram os mesmos que estavam inteiramente de branco. A maneira como o interpelavam ressaltava o respeito que ele despertava, apesar de jovem: uma a uma, as pessoas deitavam de bruços no chão, encostando suas testas aos pés do babalorixá, para depois se levantarem, beijarem sua mão com um pedido de benção, e darem-lhe dois beijos, um em cada lado do rosto. Ele então devolvia um seco e rápido “Deus bençõe!” À medida que terminavam de saudá-lo, paravam à frente da linha de cadeiras que circundava o terreiro, e logo um semicírculo surgiu ao redor do rapaz. Fernanda acompanhava tudo ao meu lado, calada, parecendo adivinhar cada gesto que viria, mas também senti seu olhar desviar-se para mim, como se tentasse ler o pensamento que meu rosto, talvez, revelasse. Teria eu deixado transparecer um pouco da ansiedade que começou a me invadir, ao pensar como faria se tivesse que sair dali naquele momento, se Ana precisasse de mim, assim que a luz foi apagada e eu não via mais a porta?

            Foi quando os tambores começaram a tocar. Quase que imediatamente à primeira batida, as palmas ecoaram na plateia, junto com um cântico entoado pelo pai de santo:

Deu meia-noite

A lua se escondeu

Lá na encruzilhada, dando sua gargalhada

Tranca Rua apareceu

 

            Conforme cantavam, o círculo se movia no ritmo das palmas, como uma ciranda. Os moços que tocavam os tambores pareciam em transe, batendo freneticamente, repetindo quase que gritando o canto, assim como as outras pessoas. O portão alto deixava apenas uns poucos reflexos da luz dos postes da rua iluminarem o terreiro, o que fazia com que o som ficasse represado ali, e para mim, que sempre tive problemas com lugares fechados, aos poucos ganhou ares com a pressão de uma decolagem, coisa que, acrescida do odor de incenso, me deixou levemente zonzo. Por alguns segundos, as pessoas passaram então diante de mim como se houvesse uma cortina de fumaça, onde eu distinguia vultos brancos que giravam, e vozes, muitas. Porém, uma sobressaiu-se às demais, quando, súbito, gritou:

- Laroyê!!!

            Aquele grito agudo e estranhamente familiar devolveu a minha atenção para a roda, onde eu vi distinguindo-se dos outros iniciados alguém que girava segurando o bordado branco de sua saia, com o turbante igualmente branco, em destaque pela altura do corpo parrudo, atravessando o terreiro como a barbatana de um tubarão que denunciasse ao mundo a sua presença. Era Elisa. Os mesmos cabelos loiros fugindo de baixo do turbante...o mesmo sorriso de tulipa aberta, vermelha, onde o espaço entre os dentes incisivos era o leito de um rio que passou, foi, e eu fiquei olhando-o como olhava o rio que ainda hoje passa atrás da chácara de minha tia, em Salto, com suas águas escuras e, por isso, misteriosas.

            De repente, aquela palavra desconhecida nos tornava estranhos um ao outro mais uma vez. Laroyê, laroyê, e algo dentro de mim também rodava ao som daqueles tambores, se tornando um ritmo interior, uma música impressionista, que reverberava gemidos e silêncios – aquela última mensagem que ela enviou, falando de sonho, de saudade, e que ficou sem resposta. Por um instante, boiei à deriva naquela maré crescente pelo desaguar de dois planos: um povoado por entidades que chegavam e outro pela lembrança de um voo com um par de asas de cera para dois corpos, que agora caiam novamente em câmera lenta.

            Mas era noite de Exu, e os caminhos precisavam ser abertos. Pouco tempo depois que aquela roda encantada começou a girar, um rapaz que era um dos iniciados parou defronte aos tambores e, contorcendo-se com as mãos no rosto, virou-o depois para o centro do terreiro e disse “Boa noite!”, com uma voz aguda, feminina, e se retirou para o interior da casa. Nesse interim, percebi que havia muito mais gente ao redor do terreiro, o que fechava ainda mais a visão da porta de saída, e eu, enfiado em um canto, tendo Fernanda de um lado, com André e uma garota que eu conhecia de vista da escola do outro, estava inquieto, embora parado, mas acossado pela multidão e pela possibilidade de ficar frente a frente com Elisa novamente. Comecei então a me perguntar sobre o porquê de estar ali. O que mesmo eu procurava? Ou não procurava nada? Mas se o nada eu já possuía, e era o abismo que eu embalava e tinha por um deus desconhecido, cultuado sem palavras, sem templo ou velas. Apenas o tato do corpo que flutua solto no Mar, imenso e autossuficiente. Para que além? Para que ali?

            A visão de uma figura que adentrava o terreiro afastou estes pensamentos, posso dizer, pelo sopro do giro de uma saia. Era o rapaz que eu tinha visto em frente aos tambores, o qual, entendia agora, havia incorporado uma pomba-gira. Vinha pelo meio do terreiro, leve como uma figura de Carybé, presa no chão mas solta no ar; nem andando, nem voando, mas dançando, toda de branco e descalça, com brincos e colar, além de um turbante que lhe envolvia toda a cabeça, meticulosamente disposto. Sobre seu rosto parecia haver uma película, fazendo a pele mais delicada e se sobrepondo aos sinais de barba, como se houvesse sido transfigurado. Sob aquela vestimenta, não era mais possível reconhecer o rapaz de óculos e que, de modo reservado, observava de um canto as pessoas que chegavam para a gira.

            Aos poucos, os demais cavalos também incorporaram suas entidades, e assim o branco antes homogêneo das roupas foi mudado pelas cores dos vestidos das pombas-gira e chapéus dos zé pelintras que ocuparam o terreiro, e circulavam entre as pessoas. Ao cheiro de incenso, juntou-se a fumaça dos cigarros que foram acesos como oferta, enquanto taças cheias de cerveja passavam de mão em mão. O escuro que circundava o centro do terreiro contrastava com a luz que vazava das frinchas do portão e vinha da rua, iluminando o espaço principal, o que me lembrou uma pista de dança, principalmente por ver as pessoas cantando e dançando. A pomba-gira que se incorporou no moço de óculos entoava em frente aos tambores, num movimento sincronizado de pés com outra pomba-gira que se pôs ao seu lado:

Quando eu nasci

Minha mãe me abandonou

Por ser bonita, por ser mulher

Eu fui deixada na porta do cabaré!

 

            Eu assistia a tudo, agora um pouco menos angustiado, mas envolvido e acompanhando cada movimento da gira. Porém, talvez o meu silêncio tenha despertado em Fernanda o impulso de perguntar, uma vez que se impôs uma responsabilidade por mim, e queria me fazer saber disso:

- Tá gostando?

- Sim!! Muito bonito!! E sorri, mais para demonstrar simpatia do que por vontade. Quando pensei em fazer alguma pergunta aleatória, como “faz muito tempo que você vem aqui?”, a garota que estava ao lado de Fernanda no momento em que cheguei aproximou-se dela e parou, falando alguma coisa ao pé do ouvido, ao mesmo tempo que gesticulava bastante, parecia elétrica. Pude ouvir algo sobre um colar que um dos iniciados ofereceu a outra garota, e ela achava aquilo uma sacanagem, porque quando eles ficaram há algum tempo, ele também tinha dado um colar a ela, que ele disse que foi consagrado a Ogum, senhor do ferro e dos viajantes, porque ela iria passar um tempo na Bahia com a mãe, e desde então usava aquela guia azul anil sobre a camiseta branca.

            Olhei novamente para a gira, e, de esguelha, para Elisa. Achava que ela já devia ter me notado, talvez logo quando cheguei, mas receava a troca de olhares, porque não sabia se devia sorrir ou desviar os olhos, ou como ela reagiria. Será que ainda teria alguma diferença se ela fingisse não me conhecer, e assim me repudiasse como daquela vez em que voltei de viagem de Minas, trazendo presentes para ela, e ela não quis me receber, achando melhor eu não ir até sua casa? Tempos depois, no Instagram, deparei-me com uma foto dela com uma moça que ela sugeria ser sua namorada, e que, por acaso, era uma das iniciadas que estavam ali, a jovem negra de cabelos encaracolados e bem curtos, com porte de lutadora de jiu-jitsu, circulando pelo terreiro, mas que sempre voltava para perto de Elisa como um cão de guarda. E os olhos de Elisa miravam o longe, mostrando o quão autônomos estavam seu corpo e seu pensamento naquele momento, aquele mesmo olhar que lembrei de ter flagrado, quando depois juntava as peças para tentar entender tudo.

             Minha visão foi atravessada por um braço que estendia uma taça. O bracelete dourado brilhava como uma luz artificial no meio daquela semiescuridão, à frente do qual o também dourado da cerveja me era oferecido sobre um punho que segurava a haste da taça como se fosse um ramalhete de flores, com a leveza de quem estende a mão para nos tirar para dançar.  E aquela mão era do moço que incorporou a pomba-gira, o qual me saudou com um curto abaixar de cabeça, virou-se e continuou a dançar no centro do terreiro. Eu segurei a taça entre as mãos por algum tempo, sem saber o que fazer, até ouvir de uma moça “É pra você beber!”.            

            Com as mãos em concha ao redor do vidro, fechei os olhos e bebi devagar, como o faria um bebedor de ayahuasca. O gosto da cerveja na língua misturou-se ao de um drops de menta degustado no caminho, mas, ainda assim, era bom e logo me senti relaxado, desacelerando os pensamentos e sentindo meu corpo ser, de diferentes modos, abraçado: pelo som dos tambores, pelo odor do incenso, pela voz da pomba-gira, que ecoava aguda e intensa, voz-uivo, e pelos iniciados que, em transe, vinham e nos abraçavam. Entre eles, já havia reparado em uma iniciada cavalo de zé-pilintra, vestida de preto dos pés até o chapéu de aba longa, um pouco caída sobre o rosto negro, e que, à certa altura da gira, havia parado à certa distância de mim, para me encarar.

            Ainda me sentia relaxado por conta da cerveja, porém voltei a pensar em Ana, sozinha no apartamento, e, por um segundo, um longo segundo de pavor, imaginei-a na varanda, subindo no parapeito e...Fechei os olhos. Quando os abri, olhei para o relógio, quase 9, e pensei em perguntar para Fernanda que horas a gira terminaria, porém reparei na mulher de preto que caminhava na nossa direção, me encarando da mesma forma de antes. Ao parar em frente a mim, eu sabia que deveria abraçá-la três vezes, variando os lados, como vi outras pessoas fazerem. Assim que terminei, ainda na terceira saudação, ouvi-a dizer alguma coisa. Não entendi, então me inclinei novamente, porém continuava incompreensível, como se ela falasse para dentro. Parecendo prever o meu movimento de chegar mais perto e, talvez, querendo guardar o mistério, ela recolocou na boca o cigarro que segurava, virou-se e me deixou ali, na solidão daquela dúvida.

            A voz de Fernanda alcançou meus ouvidos parecendo vir de longe. Era um eco da minha própria voz.

- O que ela te disse?

- Não entendi.

- O que ela te disse?

- Eu não entendi o que ela disse.

            Fernanda me olhou como se não acreditasse no que eu dizia, ou talvez enxergando naquilo alguma coisa que eu era incapaz de perceber.

- Depois você fala com ela de novo. Acho que ela tem alguma coisa pra te dizer.

            Olhei o círculo que compunha o terreiro, menor agora porque havia mais gente, e ao mesmo tempo mais largo, dando duas voltas ao redor dos iniciados e do babalorixá, dentro de onde irradiava uma energia vinda dos tambores que fazia com que tudo, pessoas, espíritos e até a própria noite, como a impressão que tive depois, fossem regidos pelos seus atabaques. E embora eu tivesse vontade de também tirar os sapatos e entrar de vez naquele chamado, que parecia ser de alguém que poderia me devolver a direção que eu perdi, eu trazia na pequena bolsa transversal algo que pesava e que, mesmo fechada, abria-se como um buraco negro ali no terreiro, arrastando sons e luzes. Peguei o celular. Nada, nem uma mensagem de Ana. Um silêncio que soava tal qual alarme: era hora de ir.

            O moço que incorporou a pomba-gira continuava a dançar, jogando fumaça para o alto, junto à mulher de vestido vermelho e preto, cujo caimento revelava uma enorme tatuagem de lótus nas costas. Olhei para Fernanda. Já há alguns minutos ela digitava no celular, e parecia impaciente no aguardo da resposta. Mas, percebendo meu movimento, levantou os olhos também.

- Preciso ir.

- Ah, tudo bem. Mas não esquece de falar com o zé-pilintra!

            Depois de me despedir dela e dos outros dois jovens que estavam do nosso lado, sai em direção à porta, mas olhando ao redor à procura daquela mulher que acreditávamos tivesse algo para me dizer. Ela saudava uma jovem que estava acompanhada de um casal, provavelmente seus pais. Parei ao lado e esperei. Ao perceber minha presença, a iniciada olhou-me desconfiada sob a aba caída do chapéu preto. Pedi licença.

- Já estou de saída. Gostaria de me falar alguma coisa?

            Ela me encarava curvando as sobrancelhas, de um jeito que fazia parecer que eu houvesse falado algo que não deveria. Sem saber o que fazer, olhei para o chão, virando um pouco o ouvido na sua direção, numa atitude de espera. Até que ela, enfim, rompeu o silêncio.

- O moço pegou o que é seu?

            Lembrei do capacete de Ana. Não, eu não o havia pegado ainda. Tinha sido guardado dentro da casa por um dos amigos de Fernanda. Antes que eu respondesse, ela se virou e caminhou para dentro da casa. Instintivamente, a segui sem saber ao certo para que, apenas não queria ficar ali, parado sozinho quase no meio do terreiro. Ela entrou em um quarto, enquanto eu esperava na entrada da cozinha, entre armários forrados com todo tipo de objetos e vestimentas usados nos rituais. Entre nós havia um corredor, pelo qual os iniciados transitavam a todo tempo, sempre olhando para mim, parado em um canto, com aquela mesma sensação do primeiro dia de aula na escola de 1º grau, mas aqui já não havia uma criança negra e solitária no meio do pátio usando Conga e com um lanche de pão com mortadela na mochila, mas um homem feito, porém igualmente só com uma depressão que, aos poucos, roubava de mim quem eu conhecia e amava.  À sua maneira, ela vivia o luto pelo bebê que nem chegamos a ver o rosto, e eu à minha. Dois quebra-cabeças que misturaram suas peças, era tudo o que nos tornamos.

            A mulher trazia o capacete à altura do peito, e olhava-o, ou analisava-o, enquanto vinha em minha direção. Quando parou, ergueu a cabeça e lançou em mim o olhar que imagino tivesse Blimunda, de Saramago, aquela que enxergava as pessoas por dentro. Estendeu o capacete, sem desviar de mim os olhos.

- A cabeça que entra aí ficou turva, né moço?

            Com a boca entreaberta e congelada de espanto, concordo.

- Parece um céu de chuva, relampejando ideia ruim.

            Eu apenas ouvia, só queria ver-ouvir aquele retrato de Ana materializando-se em profecia, nosso apocalipse particular desvelado em público. Ela deu outra tragada em seu cigarro e olhou mais uma vez para o capacete, mas dessa vez relaxando o cenho, como se olhasse um vaso quebrado que fosse possível de ser consertado.

- Mas o moço não se inquiete não, viu?, disse, expirando a fumaça pelo canto da boca. Iansã vai soprar estas nuvens embora. Agora leve o que é seu.

            Enquanto a fumaça subia entre nós, fiquei parado um breve tempo, absorto naquelas palavras, vagamente observando o chapéu preto se afastar de mim como um velho vapor mar adentro. Segurando o capacete, atravessei um corredor de roupas brancas que foi se abrindo, pontuado pelas batidas das palmas de muitas mãos, mas que não eram altas o suficiente para abafar o canto daquela pomba-gira de cujo copo de cerveja eu bebi, nem fortes em seu poder de encantamento a ponto de eu me esquecer de ainda olhar, de esguelha, para Elisa, que girava e levantava os braços, e de quem ainda pude ouvir, enquanto atravessava a porta de saída, um derradeiro Laroyê.

 

   * Autor da imagem não identificado.         

           

             

             

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