Happy hour caiçara
Happy hour caiçara
Sol, here comes, parecendo uma laranja madura. Mas tem nuvens também. Uma, particularmente, perdi a noção do tempo que vi se expandir, se arrastando no azul. Os olhos meio-fechados atrás dos óculos escuros, oscilantes entre o horizonte e o livro no colo. Proust depois de uma caipirinha de vodka é dislexia. Alguém pergunta se pode pegar a latinha em cima do cooler. Minha mãe responde que sim, e ainda oferece outra, despejando na areia a cerveja já quente. Conheço aquele riso de minha tia.
- Olha lá aquilo...
À nossa frente, uma mulher de bíquini-verde limão e chapéu Panamá apoia seu celular em uma espécie de necessaire sobre a mesa de praia, se afasta e começa a rebolar. De ladinho. Levanta a perna. Põe o dedo na boca com cara de safada. E vai descendo, vai. Um sorveteiro desacelera para ver. A menina caçula da família de japoneses ri com a mão na boca, a mãe não. Ensejando fome, estende irritada o cardápio para o pai e aponta o quiosque, que ele vá lá fazer o pedido, porque o garçom está demorando. A areia quente faz o homem caminhar como um caranguejo, para com pretexto de secar o suor da testa, levanta um pouco o bucket e ajeita os óculos estilo Dahmer enquanto volta o rosto para a direção da mulher. Mais exato, do seu movimento: correndo para o mar, faz seu nascimento de Vênus, sonhando likes.
Bib-bip. Bip-bip. O toque não parou desde que saímos do interior. Perguntei por que minha tia não deixa esse celular no silencioso, e ela disse deixo tocar não atendo. Parece que foi há pouco que troquei de posição para ver se me encaixava melhor na sombra do guarda-sol, mas percebo o tempo na minha pele queimando de novo. Mesmo assim, a flanagem da vista me segura. Pousa no casal, um par de excêntricos. Ambos de roupas inteiramente brancas, chegaram anunciados pelos dois cachorros que vieram correndo à frente, latindo para Deus e o mundo. O sotaque carioca logo aparece quando a mulher grita que verrgonha dessa cachorra e se reforça pelo tipo cover de Inês Brasil, com uma presença de avalanche sobre o rapaz, o que o tornava cover de todo mundo, insosso daquela mandinga que a fazia também vender suas coisas nas areias do Rio, e dizer para dona do quiosque e mais quem quisesse ouvir, passa o nome dela que eu faço uma macumba pra te ajudar.
- Ei, ei, Fer! Vira pra cá!
Já atrás de mim, minha mãe levanta o celular à altura do meu rosto, devolvo meu sorriso mais amarelo. Da tela, eu vejo lá no calçadão uma meia-lua cinza. Um pouco ao lado, uma bicicleta encostada numa lixeira. Atrás dos ombros fardados, dois rapazes em pé, um deles preto de cabelo nevado, o outro meio indígena, bigodinho e bolsa cruzada no peito desnudo. O policial que checa as informações no celular também mede os jovens de cima a baixo. A bicicleta, como uma prancha cravada na areia diante de um mar agitado, assiste mais uma vez o mesmo filme, cheia do torpor de uma tarde como aquela, mas também com uma revolta muda, que atravessa a praia na circunferência da bola lançada ao ar no jogo de futvôlei. E um dos caras que jogam prepara o movimento. Do lado de lá da rede, o policial prepara o seu. Uma palma na bola, a outra no peito. E o couro é quase o mesmo. Quase.
O gelo completamente diluído dentro do cooler, quando o abro para pegar água, e as ameixas que ali boiam me lembram que a tarde passou sorrateiramente, e que logo teremos de ir. Tem previsão de temporal para amanhã, então é melhor pegarmos a estrada o quanto antes, concordamos. É hora de chamar o garçom, mas também de encerrar meu ritual. Vou de encontro ao mar para terminar de guardar seu verde, me fazer concha, ser também um corpo de sargaços. É a hora de um outro crepúsculo: vou a ele como imagino Ulisses diante do Mar Egeu, dando seu último mergulho antes de cruzá-lo em direção a Troia. Mas, por enquanto, quero esquecer as batalhas que deixei do outro lado.
Entro, como sempre, devagar. As ondas são maiores agora, mas ainda são carícia. Fico mais afastado, este dom do verão é meu e não quero dividi-lo com ninguém agora. Poderia dizer tom: aquele de um solo de Coltrane que te faz flutuar. Tanto faz. Tanto faz qualquer coisa agora...
- Foda ter que aguentar isso aí, hein?
A voz parecia ter saído do fundo do mar. Viro o rosto em sua direção, e me deparo com um homem gordo que me fez lembrar John Candy, sentado em um Jet-Sky, o qual apontava erguendo o queixo para um grupo que ouvia funk na praia, ressoando de uma caixa que piscava sobre uma cadeira. Poderia ter respondido com um vago “Pois é”, e continuar na minha, mas acabo por dizer, relembrando minha corrida pela orla pela manhã, que a sujeira que deixavam na areia me incomodava muito mais.
- Tinha que ver isso aqui no dia primeiro, ele diz. Um monte de garrafa desse pessoal que toma banho de champagne e atira flores no mar, acreditando que vai melhorar alguma coisa. Besteira! Melhoraria se atirassem é na cara daquele ministro safado, e do presidiário amigo dele! Aí sim...
Olhei bem para a cara gorda dele, do tal cidadão de bem. Correntinha com crucifixo, dizendo morar no condomínio ali perto da praia, que tinha o tal sobrenome qualquer coisa, da família que o fez em um ramo qualquer. Eu o olhava como naquele mesmo lugar um tamoio olhou o português barbudo e fedorento desembarcar, com papo de salvação e pecado. Desconfiou das mesuras do cacique Tibiriçá e deu no pé. É o que faço. Minto dizendo que o garçom me esperava com uma porção na barraca, e me despeço sem deixar de alfinetar: quem sabe as coisas melhorem quando começarem a cobrar impostos de quem tem jatinho, navio, e tals? O homem fala alguma coisa, protesta provavelmente, mas o barulho dos meus braços contra a água abafa sua voz.
Vou olhando as conchas espalhadas na areia, tantas delas. Um pouco adiante, um grupo de crianças rodeava uma menina, sentada à beira-mar com um balde amarelo. Me aproximo e vejo o cavalo-marinho circulando assustado diante dos muitos olhares curiosos. Com um tom acastanhado de areia, nadava de um lado para o outro a cada impulso feito com a cauda. Nisso, uma das crianças diz “Ela deve ter filhinhos aí na barriga. Põe ela de volta pra eles nascerem na casa dela”. A menina que segurava o balde amarelo responde “É mesmo!!” e saí abrindo caminho entre as crianças, rumo ao mar. Acompanho um pouco atrás, piso devagar a réstia de sol na água-diamante, mãe e tia já colocaram seus vestidos e esperam de pé, mas eu quero ver.
O balde desce devagar até o nível da água, e fica assim até o peixe sair, parecendo desconfiado, mas logo afoito, impulsionado pelos gritos das crianças. Ainda conseguimos vê-lo por um instante, mas logo some, debaixo de uma onda que vem. Elas a procuram ainda. Eu, menino antigo, não quero deixar de ver.
12-02-2024


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