O violão
Aquele casamento era a minha última
esperança. Na verdade, era mesmo o último que sobrara depois de todos os
cancelamentos que se seguiram. No começo, ainda lidava com tranquilidade, dizia
pra pessoa “Sim, concordo com você, é o melhor mesmo”, mas depois de ver minha
agenda dos próximos cinco meses evaporar, eu quase implorava pra que a data
fosse mantida. Mas ainda restava aquele.
Restava. A mensagem de voz vibrante de frustração da moça decretou minha
sentença, me deixando desorientado em meio aos corredores do supermercado, e
sentindo o cesto carregado do mínimo de coisas parecer pesado.
Só ficaram os poucos alunos. Mas sempre foram poucos. Nunca
fui de aliviar e fazer concessões, o que frustrava a garotada ávida em pular
etapas, jogar no lixo a teoria e mergulhar de cabeça na prática. Nem tenho a vantagem
do carisma: desconheço esses nomes pós MTV que eles empolgadamente me
apresentam, e só respondo que um dia ele mesmo vai tirar aquela música. Não, não dá. O samba e o choro, apesar de
improvisados, também me trouxeram o rigor, e foi por causa dele que eu também
recusei trabalhos com artistas promissores, mas descartáveis.
Desde que comecei a tocar na noite, nunca fiquei longe dela
por mais de uma semana. Agora, lá se vão 3 meses desde que os bares foram
fechados por causa da porra desse vírus. Da noite pro dia, sem nem tempo pra se
planejar. Quem pode, se vira nas lives, mas esse esquema de “doa quanto quer”
quase não gira nada, pelo menos pra nós, da noite. Daí, a tragédia foi se desenhando: contas, carro
sem gasolina, pensão pendurada, geladeira cheia de espaço, o dono do
apartamento ligando, dizendo que entende o meu lado, mas...
Mas. O meu mas é você. A única saída que sobrou. Ali na
parede, dependurado, se oferecendo como um fruto para um esfomeado. Meu Do
Souto, 1981. Naquele ano nem imaginava que teria tal veneração por aqueles que
tocaram outros como você, de 7 cordas, como se tivessem 11 dedos. Mestres Dino,
Meira, tanta gente. E eu querendo me encaixar, chegando tímido nas rodas de
choro, ficando ali, só observando, aprendendo aquilo que Tatuí, naquela época,
não poderia me ensinar. O virtuosismo da rua.
Quem te vê assim, tampo de pinho reluzindo em contraste com o
ébano do braço, nem imagina que há quase 30 anos você me acompanha. Chegou pelas
mãos da viúva do Paulão 7 Cordas, músico exímio, que, depois de um show em
comemoração ao aniversário do Bloco Bafo de Onça, foi tombado por um enfarte
fulminante. Arrebentava assim aquele peito onde ele parecia querer te guardar
quando tocava, embalando como um filho ao colo e, sem saber, a mim, moleque
cheio de espinhas que acompanhava os Chorões de longe. Dele eu recebi a chave
do seu mistério.
Dali em diante, a minha vida seguiu como um rio enchido por 7
afluentes. Ganhamos mundo. Vimos alemães, japoneses, espanhóis, franceses e
americanos tentarem inventar uma malemolência com suas cinturas e pés duros,
empolgados pela música que fazíamos, que era também nossa linguagem, absorvida
em poucos minutos. Como entender a lágrima se anunciar nos olhos da francesinha
ao ouvir Cartola senão pela simbiose cósmica entre a voz e você?
Estivemos no limbo e no paraíso dos blocos de carnaval.
Éramos poucos naquelas tardes de matinê que nos reservavam nos anos 80 e 90,
quando a lambada e o axé atraíam as luzes, mas voltamos com força quando os
blocos ressurgiram, e com eles o samba de raiz. Tínhamos até incentivo do
governo...Ganhamos as ruas daqui novamente, de São Luis do Paraitinga, São
Paulo. Às vezes dois eventos no mesmo dia. Mas íamos, porque o chamado do samba
é como uma maldição. E eu sou um Sísifo que te carrega até o topo da montanha,
para que rolem melodias.
Mas isso eu não posso colocar no anúncio. Ninguém se
interessa. Tudo se resume a números e nomes de materiais. E fotos. Mas como
escolher uma entre tantas em que estamos juntos? Talvez pedir o conselho de
alguém, dividir com ele o peso do sacrifício... Não. Cabe apenas a mim essa
solidão do capitão de navio que tem se separar da sua embarcação depois de
tanto navegarem juntos, sabendo que o mar continuará pra nós. E queimará o sal
que ele deixou nas nossas peles: na ponta calejada dos meus dedos, nas tuas
costas o meu cheiro.
Ouvir que o show tem que continuar soa bonito na canção, mas
o coração nada escuta. Só sente a vibração no ar, tipo cinema-mudo, olhando
para nada daqui deste apartamento, entre fumaça e olhares vagos nos prédios,
tão sem música quanto o meu.
Alberto Gil –
07/07/2020


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