A liberdade é azul

 


            A luz que diminuía nos olhos dela foi crescendo aos poucos dentro dos meus. Começou com o cabo da faca empunhado ao contrário quando preparava o pão com manteiga pra mim: foram pequenos gestos como aquele que revelaram as rachaduras na fortaleza que minha vó tentava ainda manter em pé. Assim também os pares de chinelos trocados, o tatear tímido do horizonte fugidio, a lentidão excessiva para descer a escada que levava ao banheiro, coisa que seria motivo da sua vergonha e certeza da inesperada decadência, fazendo-a esconder na cômoda antiga suas calcinhas molhadas de urina.

            Cabia à prima Isabel a tentativa de tirar de sua natural paciência um cavalo de Troia para adentrar aquele território que sempre fora hostil, mas que, depois da cegueira, estava em permanente estado de guerra. Qualquer um que se atravesse a tentar dividir os comandos da engrenagem da casa com minha avó era repelido como se tivesse feito ofensa. Por isso ela usava sempre aquele avental azul, desde a manhã até à noite, era seu escudo, seu jeito de gritar ao mundo que ela ainda servia para a labuta do dia a dia. E a gente, os seus, de repente não era mais alguém para ela cuidar como antes, mas a plateia de um estranho solo de dança no escuro, com seus tormentos e a sombra do meu avô já morto.

            Na escola, vez ou outra, alguma mãe me perguntava por ela, que até algum pouco tempo antes de perder a visão era quem me levava. Passei a ir com uma vizinha e seu filho, depois que minha avó, indo a caminho da escola, fora atropelada por uma moto quando foi atravessar a rua e não a viu se aproximar. Mesmo assim, ainda me esperou no portão da escola naquele dia, com a têmpora esquerda ralada e roxa, usando óculos diferentes dos habituais, pois aqueles haviam quebrado na queda. Pela primeira vez, eu reparei nos seus olhos que antes vidros mais grossos ocultavam: estavam levemente azuis. Seriam de lágrimas que algum de seus velhos lenços tentou disfarçar?

            Carreguei minha dúvida até a tarde em que, voltando do quintal de terra onde eu brincava em uma goiabeira, eu vi minha avó sentada numa velha cadeira, nosso cachorro Snoop ao pé dela. Tinha os olhos para lugar nenhum à sua frente, tão longe que nem percebeu a minha presença. E eu parei. Entre nós, eu sentia o silêncio tingir-se de azul, pairando no ar como um gás, leve e pesado ao mesmo tempo, sem corpo, porém com olhos e um avental azuis. Minha avó cumpria a sina dos elefantes: começava a ficar distante, solitária, entregando a mim uma fotografia em sépia de azul, com seu tudo-nada a deslizar pela sua mão sobre a cabeça de um cachorro, e pelos olhos furta-cores de uma criança.

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