Lápis cor de pele

 

Lápis cor de pele

 

            Na ladeira de paralelepípedos, uma multidão de pequenas pernas descia ritmada, algumas dando curtos trotes que faziam as bolsas azuis sacolejarem no ar. O barulho dos kichutes, chinelos e sandálias pisando o chão reverberava pátio adentro, junto com uma ou outra advertência como “respeita a professora” ou “não corra de barriga cheia”, que pareciam acompanhar as crianças como as sombras das duas árvores enfileiradas, até o portão de entrada, cruzado por Leandro com os olhos caçadores bem abertos à paisagem e às figuras de sua rotina: cadê Claúdio? E Márcio?

            Já estavam na fila. Embora fossem gêmeos idênticos, não poderiam parecer mais diferentes. Mesmo com o uniforme escolar e o igual cabelo tigelinha, um sempre usava alguma coisa ausente no outro: quando Cláudio estava de boné, Márcio não estava; quando este ia de tênis, aquele usava chinelos. E o temperamento também não deixava dúvidas de quem era quem: Márcio era de poucas palavras, pouco se ouvia sua voz, mas era o mais rápido a fazer as atividades, enquanto Cláudio era do tipo social, sempre sendo o primeiro a levantar a mão quando a professora perguntava algo para a turma, mas enrolava para terminar as tarefas. Apesar disso, um sempre estava perto do outro, coisa que fez tia Joana chama-los, num dia, “meus dois de Áquila”. Ninguém entendeu nada, até ela falar para eles de um filme sobre um casal que, por conta de um feitiço, nunca se encontrava na forma humana, mas estavam sempre juntos: o homem como um falcão, a mulher como um lobo. Quando ouviu aquilo, Cláudio levantou na hora, apontando para o irmão:

- A mulher é ele, né tia!?, fazendo as sardas de Márcio se realçarem no rosto corado.

            E era um filme o que fazia Leandro, naquela manhã de segunda-feira, querer encontrar os gêmeos. Na sexta passada Cláudio havia comentado que naquele final de semana iriam com os pais ao cinema para assistir ao novo filme dos Trapalhões. Leandro era completamente apaixonado por eles, principalmente pelo Mussum. Gostava tanto dos trejeitos, seus “is” ao final das palavras, quanto por acha-lo parecido com seu pai, de quem se lembrava mais pelas fotos e pela mesa de sinuca do bar aonde ele o levava, cujas bolas não pareciam ter tantas cores como ele ouvia os homens falando. Algumas até pareciam iguais, como iguais, para ele, tornaram-se aquele objeto redondo e a palavra sem destinatário, substituída por um apelido que ouvia e que sempre criava uma sombra no rosto de quem o pronunciava : o Bola...

            Quando entraram na sala de aula, Leandro colocou a bolsa azul no cabide ao lado da porta, como todos faziam, e foi logo até a mesa onde os gêmeos estavam. Como aquela seria aula de desenho, Márcio e Cláudio já tinham colocado sobre a mesa suas caixas de lápis de cor, quando Dominique se juntou a eles, a franja cobrindo toda a testa, quase até os olhos puxados. Como Leandro, seu pai também partiu, mas Dominique sabia onde ele estava: lá no Japão, de onde ele enviou para ela aquele brinquedo que um dia ela mostrou na aula de matemática: o ábaco. Mas era mesmo a sua caixa de lápis de cor o que deixou Leandro fascinado: tinha 36 cores! Dominique dizia o nome de algumas, nomes estranhos para Leandro, que não via diferença entre algumas, quando ela lhes mostrava os lápis.

            Ele ia perguntar para Cláudio sobre o filme, quando tia Joana colocou sobre a mesa, na frente de cada um deles, uma folha com um desenho para colorir. Era o rosto do Papai Noel. Aquela era a primeira atividade que tia Joana passava referente ao Natal, pois Dezembro tinha começado na semana passada. Assim como ela, as professoras das outras turmas de pré fariam o mesmo, deixando a escola toda cheia de símbolos natalinos. Leandro se lembrava que, no ano passado, a tia Marlene  preparou uma encenação do nascimento de Jesus com a turma, fizeram duas vaquinhas usando papelão e cartolina, e ela ia contando a história para a plateia de alunos, com Leandro vestido de Baltazar, o rei negro. A foto estava lá na estante da sala, ele com a coroa de papel laminado dourado e uma túnica branca emprestada da escola, já meio amarelada de outros natais.

            Leandro olhou o desenho, mas não sabia ainda quais cores usaria. Pensou em começar pela roupa, talvez pelo gorro. Olhou no seu estojo à procura do amarelo escuro. Mas aí, olhou para as outras crianças e viu que elas pintavam o rosto do Papai Noel. Pegou então o roxo e já ia começar, quando ouviu a voz de tia Joana vindo lá da frente da sala:

- Este não, Leandro!! Use o cor de pele! E ergueu para ele o lápis, do estojo que tinha sobre sua mesa.

            Mas aquele não é o vermelho? Era o mesmo da cor da roupa do Papai Noel. E sua pele também não era daquela cor, para se chamar assim. Era como a de Mussum e a de Baltazar. Ficou confuso. Mesmo assim, abriu o estojo de pano preto e tirou dele a cor que tia Joana lhe tinha sugerido: um vermelho carmim. E começou a pintar o rosto, do centro para fora, como costumava pintar, segurando o toquinho de lápis entre os dedos pequenos, porém ágeis, espraiando sobre o papel a cor vermelha, como um vinho que tivesse sido derramado em câmera lenta. Estava concentrado em seu desenho, quando, de repente, um “Olha!” ecoou da direção de Cláudio.

            O menino apontava o desenho de Leandro, com um riso na cara, dizendo “O Papai Noel dele levou uma tijolada!! Tá sangrando!!”, e todo mundo parou então o que fazia para olhar o desenho de Leandro. Uns meninos até saíram de suas mesas para olhar de perto, e depois ficaram rindo. Ele sentiu vergonha e, num impulso, amassou rápido a folha, pensou em jogar no lixo, mas aí percebeu que as crianças iriam pegar e continuar tirando sarro dele, e foi então que o escondeu no bolso da calça de moletom. Depois que todos começaram a sair para o intervalo com a professora, Leandro ficou para o final da fila, e, antes de atravessar a porta, correu até a bolsa, abriu-a e jogou o desenho lá dentro.

            Ficou amuado o resto da manhã, nem quis saber mais do filme dos Trapalhões. Só começou a melhorar quase no final da aula, quando seu Antonio, responsável pelo Centro Comunitário do bairro, passou na sala para convidar as crianças para o evento da semana do Natal, e também entregar um bilhete pedindo prendas. Leandro adorava a festa do Centro, onde havia gincanas, brincadeiras, cachorro-quente e pipoca. Mas o mais esperado era mesmo a hora em que seu Antonio chegava vestido de Papai Noel, entregando pequenos presentes às crianças.

            No caminho para casa, junto do avô, Leandro perguntou por que aquele lápis se chamava assim. O avô ficou meio desorientado com a pergunta, deixando um “então, fio...” suspenso como que para tomar fôlego, até dizer que aquela não era a cor da pele de verdade, mas funcionava mais ou menos como as maquiagens, tipo o batom da mãe, o vermelho para cobrir a pele negra dela. Leandro continuou pensando. Quando passavam pelo campinho, um grupo de meninos soltava pipa, e duas delas tiravam relo no ar. Os dois pararam para observar. Uma delas, de repente, fez uma curva para o alto, mergulhando logo em seguida como um falcão em busca da presa, e subiu de novo debaixo da linha da outra, que começou então a cair sem controle.

            A pipa veio girando na direção de Leandro e do avô, as crianças correndo atrás. Conforme se aproximava, o avô de Leandro abriu mais os olhos e sorriu. Apontando para o alto, disse:

- Alá, fio! É do Palmeiras!!

            Leandro, que era corintiano como o avô, olhou curioso na direção da pipa. Ouviu ainda o avô gritar zombeteiro para o grupo de meninos “É verde mais já cai de madura”. Porém, ele não via o verde, apenas umas letras brancas girando sobre o papel de seda.

            Em casa, depois do almoço, Leandro se sentou no chão do quartinho dos fundos, lá onde a família guardava coisas sem uso. Dali ele viu sair, há poucas semanas, uma caixa grande, que o avô dissera conter um vestido de casamento. Pensou logo no novo filme dos Trapalhões, do qual ele vira um chamado na televisão, mas aquele era o vestido que a tia-avó da mãe costurou para ela, mas que nunca havia sido usado. O avô até abriu para ele olhar. Leandro imaginou a mãe dentro, e a barriga dela espichada branca, com o irmão que estava chegando, fruto de um homem que aparecia de vez em quando, trazia uma sacola com cervejas nos churrascos, uma caixinha de Polenguinhos para ele e passou a se sentar na mesa para jogar baralho com o avô.

            Leandro desamassou a folha sobre o piso de cimento queimado. Olhou a cara do Papai Noel, com o tom rosado descendo pela lado esquerdo. Pensou de novo no lápis cor de pele, nas risadas de Cláudio e das outras crianças. E imaginou, de repente, algo que parecia tão incrível quanto ver uma paquita pretinha entra aquelas loiras: e se Papai Noel fosse como ele? E se tivesse, ao invés das bochechas rosadas, o sorriso branquinho e piscasse confidente como o Mussum? Nessa divagação, apanhou um lápis marrom no estojo e começou a pintar o rosto, espalhando a cor sobre o vermelho, com rabiscadas curtas, mas contínuas, e o papel ia parecendo um pôr de sol de verão ao encontro da noite.

            Depois que terminou, Leandro parou para ficar olhando o rosto negro entre suas mãos. E novamente sonhou, mas, dessa vez sorriu: imaginou Papai Noel chegando no Centro, aquele monte de criança correndo na direção dele, que não seria mais o Seu Antonio, mas seria Mussum, fazendo graça e deixando Leandro maravilhado quando dissesse “Bommm diaaa, criançadis!!!”.

           

           

           

                       

           

           

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